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18 Abril de 2020 | 15h36 - Actualizado em 19 Abril de 2020 | 12h17

Procura do milho aumentou com novos aviários

Luanda - A Indústria Angolana de Óleos Vegetais (Induve), surgida no mercado nacional em 1957, com apenas duas linhas de produção, está a investir forte para dinamizar o mercado da farinha de trigo, prevendo produzir 700 toneladas/dia.

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Campo de milho na Huíla (foto arquivo)

Foto: Morais Silva

Por Ana Cláudia

A empresa, que se dedicava à produção de óleo vegetal e sabão em barra, afirma ter condições para produzir quase a metade das necessidades do país, em termos de farinha de trigo, podendo atingir a cifra máxima de 255 mil e 500 toneladas/ano.

Para falar sobre esse e outros investimentos, a ANGOP ouviu o administrador financeiro da indústria, Kidy Aragão, que afirma serem, nessa altura, os líderes do mercado na produção de farinha, e pretenderem atingir toda a cadeia de produtos da cesta básica, sobretudo cereais.

Eis a íntegra:

Angop - Qual é a situação actual das linhas de produção de óleo vegetal, farinha e ração?

Kidy Aragão (KA) - A Induve é uma empresa fundada em 1957, foi muito conhecida como produtora de óleo vegetal feito através do girassol e, consequentemente, pela produção de sabão em barra.

O nosso grupo adquiriu a Induve em 2003. Entre 2004 e 2005, não era vantajoso continuar com a produção de óleo vegetal. Tivemos de fazer investimentos na farinha de milho, dentro da perspectiva do Executivo de aumentar o sector primário, mais precisamente os produtos da cesta básica: milho, arroz e outros cereais essenciais.

Vimos uma grande oportunidade em criar um novo investimento, que foi a moagem de milho. Infelizmente, ao longo dos anos, constatámos que não foi possível adquirir matéria-prima suficiente para a nossa actividade, mas estamos aqui em pé. Dependemos ainda muito da importação deste bem, desta matéria-prima, porém, o caminho é para frente.

Angop - Sobre o óleo vegetal, ainda há produção?

KA - Não temos produção, mas há uma linha de enchimento e de tratamento de óleo já refinado. Infelizmente, tendo em conta as políticas traçadas devido à isenção dos produtos da cesta básica que se via anteriormente, isso em 2011, deixámos de o produzir, porque não era competitivo, face à concorrência da importação. Por essa razão, tornou-se desajustado esse negócio para nós, contudo tencionamos, num futuro próximo, voltar com a sua produção.

Angop - Horizonte temporal para esta pretensão?

KA - Estimamos em médio a longo-prazo. Não quero avançar uma data específica, visto que depende do comportamento do mercado, mas estaríamos a falar entre três e quatro anos para o óleo vegetal.

Angop - Por que razão o sabão em barra já não faz parte da linha de produção da Induve?

KA - Um dos principais componentes da produção de sabão em barra é, precisamente, a gordura do óleo vegetal, e, não o produzindo, fica-nos difícil fazê-lo. Vimos que não estaríamos a fazer um casamento que poderia resultar em sinergia e contribuir para termos preços competitivos no mercado.

Já está em carteira a nova fábrica de sabão da Induve, que também será uma realidade, assim que terminarmos a fase de implementação da moagem de trigo.

Angop - Estão a produzir de acordo com a capacidade instalada das linhas de produção?

KA - Infelizmente não.

Angop - Quais as razões?

KA - Por duas razões: primeiro é que em 2011 tínhamos acesso às divisas, infelizmente não havia a produção da matéria-prima, o que nos obrigava a importar.

Embora, naquela altura, tivéssemos acesso às divisas, havia a concorrência da importação da farinha de milho do Brasil, que acabava por ser um subproduto, a um preço inferior, e isso deixava-nos, de certa forma, sem mercado de venda.

Segundo, quando o Executivo viu todas essas vertentes e apostou, claramente, na industrialização do nosso mercado nacional, deu-se a escassez de cambiais, reduzindo a capacidade de importação da matéria-prima. Sendo um produto indispensável, não nos foi possível termos as quantidades necessárias para a actividade.

Angop - Como avalia a concorrência em termos de preço entre os produtos da Induve e dos bens importados?

KA - Há algo que eu gostaria de deixar bem claro: quando montámos a nossa unidade fabril da moagem de milho, tivemos em consideração a economia, e isso implica que, se eu comprar a matéria-prima fora, que ainda é mais barata, o tempo irá mudar, conseguirei fazer face à concorrência e ao produto importado.

O que se põe em causa, neste momento, é a necessidade de maior oferta da matéria-prima no país, através das políticas que o Executivo tomou no bloqueio indirecto, com uma nova pauta aduaneira que incentiva a produção nacional, taxando os produtos da cesta básica importados. Estamos a falar, neste caso, da farinha de milho, que tem uma taxa de importação de 20 por cento, o que já é uma vantagem competitiva para mim no mercado.

Somos, actualmente, a maior unidade fabril de produção de farinha de milho no país (60 mil toneladas/ano). Existem outras com expressão, mas podemos dizer que somos os líderes. Temos abastecido quase 60 a 70 por cento do mercado nacional.

Angop - Quais os projectos para a expansão das linhas de produção da farinha de milho, óleo vegetal e ração?

KA - Pretendemos atingir toda a cadeia de produção de produtos essenciais da cesta básica, principalmente os cereais. Hoje, a Induve é líder da produção de farinha de milho, está a investir na sua produção, vai também investir na de sabão em barra e na de massa e de óleo alimentares, que será a ultima fase, porque até agora não é competitivo nem atractivo investir-se neste período em que o mercado internacional não dá grandes margens de manobra para quem está a fazer a produção de óleo vegetal em Angola.

Angop - Qual é o prazo para a implementação destes projectos?

KA - Já está em carteira e em execução a fábrica de farinha de trigo. As obras já começaram por meio do PAC. Acreditamos que até Janeiro de 2021 estará operacional.

Angop - A aquisição de matéria-prima ainda continua a ser uma condição?

KA - Continua, porque, em escala, vamos dizer que a produção industrial não se faz sentir ainda no mercado nacional, mas existem empresas com projectos muito ambiciosos. Este ano, vamos começar a ter maior produção nacional ainda muito díspar em relação àquilo que é a nossa necessidade, dado que infelizmente somos obrigados a importar mais do que consumir internamente, e isso tem sido uma dificuldade, pois cria pressão aos cambiais, coisa que, de facto, já não deveríamos ter no mercado angolano.

Angop - Qual é a razão para Angola não ter ainda capacidade de matéria-prima?

KA - Acho que não sou a pessoa mais indicada para falar sobre isso, visto que sou industrial. São os investidores do sector agrícola que o devem fazer. Mas arrisco-me a falar.

O grande problema são as políticas que ainda não estão tão desenvolvidas, embora hoje já comecemos a ver algumas que possam facilitar a produção de milho em massa. Uma delas é a falta de tecnologia, ou seja, muitos agricultores ainda dependem da natureza das chuvas, uma vez que não têm os pivôs de irrigação para produzir milho durante o ano.

Temos três factores importantes: a quantidade, a tecnologia e o acesso ao crédito. As políticas de crédito não estão ainda tão alinhadas para facilitar o agricultor a ser financiado.

A agricultura é o resultado de projectos de longo-prazo, mas os prazos máximos de financiamento, no nosso mercado, rondam de sete a oito anos, o que não é suficiente sustentar esta actividade. É necessário haver prazos mais alargados, sobretudo por sabermos que os seus produtos são susceptíveis a riscos como pragas. Por outro lado, não existe um seguro agrícola que possa dar maior conforto aos investidores desta área.

Não obstante, há o problema de sementes, fertilizantes, insuficiência de bancos de sementes e laboratórios especializados para atender a determinado tipo de necessidade no país. Então, é ainda um processo incipiente, mas que já tem pernas e já está a andar. Existem agricultores/investidores que já estão a produzir certa quantidade.  

Para ter uma ideia, a necessidade da Induve é de 120 mil toneladas de matéria-prima de milho/ano, ou melhor, de 10 mil toneladas/mês.

Agora mais do que isso, eu deixaria os agricultores falarem sobre esta situação, pois sabem das dificuldades que vivem, e os industriais também.

Angop - Qual é a quota do mercado interno em matéria-prima para a Induve poder operar permanentemente?

KA - A quota do mercado interno das nossas compras representa apenas 10 por cento, número que deve, a médio-prazo, ser drasticamente alterado, visto que a demanda na procura do milho aumentou com a criação de novos aviários, os suínos e a nova forma de produção da carne bovina, em que o boi também é alimentado com milho.

O milho não serve, simplesmente, para a produção da ração humana e animal, mas também existe uma grande demanda para as cervejarias do país.  

Então, o milho que hoje é produzido não é suficiente para atender a todo esse leque do mercado (…).

Angop - Quando fala em alteração da percentagem da quota, a que se refere?

KA - Quando falo em alteração, refiro-me ao facto de o mercado interno ter mais oferta, para que eu possa alterar paulatinamente a 20, 30, 70, até que, a médio e longo prazo, adquira essa matéria-prima, que é o milho, 100 por cento no mercado nacional.

Angop - Tendo em conta o agudizar-se da crise que já afecta muitas empresas do sector industrial, a Induve tem em perspectiva a redução da mão-de-obra?

KA - Não, já o fizemos. No passado, houve fases muito críticas, mas acreditamos que, embora muitos investidores vejam esta como não muito boa, nós, Induve, entendemos que é o momento certo e que as políticas traçadas, que automaticamente afectam os factores externos, são favoráveis. Portanto, não temos necessidade de reduzir a nossa mão-de-obra de 250 trabalhadores, pelo contrário, com o surgimento da nova unidade fabril, vamos empregar mais pessoas.

Angop - Qual foi o volume de negócios em 2019?

KA - No ano passado, conseguimos abastecer o mercado entre 50 e 60 mil toneladas de farinha de milho. Obviamente que 20 por cento deste produto foi o farelo (ração animal), muito utilizado pelos avicultores e criadores de suínos.

Angop - No âmbito do Programa de Apoio ao Crédito (PAC), como pensam operacionalizar este investimento?

KA - O PAC não foi um programa simples. O Executivo já havia lançado outros, como o Angola Investe, que infelizmente não mostrou crescimento do sector privado em relação àquilo que se tinha investido.

O Executivo criou o PAC para ter mais salvaguardas na fomentação da economia. É um programa bom, por isso aderimos, ainda que de forma incipiente. Acreditamos que será um plano de sucesso.

Somos um exemplo vivo deste processo, aderimos ao PAC para o investimento que estamos a fazer. O nosso estudo de viabilidade, se não fosse pelo PAC, seria muito mais oneroso, com maturidades muito mais reduzidas, o que haveria de influenciar bastante no nosso “cash floow” (Fluxo de caixa, dinheiro que entra e sai de uma empresa).

Angop - Em quanto está avaliado o projecto?

KA - Estamos a investir em torno de 20 milhões de dólares para a nova unidade fabril. Boa parte deste projecto já existe. Falo em termos de prédio rústico, terreno e infra-estruturas já existentes. Se fosse a começar do zero, não estaríamos a falar de um limite de 20, mas de 30 a 35 milhões.

Mas, do valor global, estamos a desembolsar 50 por cento, neste caso, 10 milhões. A outra metade é que provém do crédito, no âmbito do PAC.

Angop - Este valor já foi disponibilizado?

KA - Ainda não. Estamos já na recta final. É apenas uma questão administrativa que deve ser alinhada com as garantias que já disponibilizámos e o seguro para o projecto.

Angop - Qual dos nove bancos vai financiar o projecto?

KA - Estamos a trabalhar com o BIC.

Angop - Qual a capacidade instalada da futura unidade de processamento da farinha de trigo?

KA - A capacidade instalada é de 700 toneladas de farinha de trigo por dia.

Angop - A matéria-prima vai ser importada ou produção local?

KA – Infelizmente, ainda será importada. Acredito que será importada por um bom tempo. Não é como o milho que, em médio-prazo, já teremos produção satisfatória. Convém que eu esclareça: Financeiramente, médio-prazo refere-se sempre a menos de um ano. Porém, estou a falar em termos operacionais, em que é precisamente o período no qual temos retorno do nosso investimento, normalmente são cinco anos.

Para a farinha de trigo, creio que levará um pouco mais de tempo, mas já existem alguns agricultores a produzi-la. Não sei em que condições, porém sei que já houve produção de 100 toneladas que se estragaram. A longo-prazo, sim, é possível produzir trigo em Angola.

Angop - Quando começa a ser executado?

KA - As obras já começaram. Estamos a trabalhar com empresas de renome na construção civil em Angola, que estão a fazer as fundações para os silos de grande capacidade, porque as condições e a capacidade de armazenamento são importantes, por definirem as reservas alimentares a longo-prazo

Não podemos pensar em reserva alimentar da farinha de trigo, que tem um prazo máximo de quatro a seis meses, depois não tem a mesma qualidade. Devemos, sim, fazer reservas do grão que pode conservar as suas qualidades em dois anos, se bem armazenado

Já começámos as obras civis e acreditamos que, em Janeiro de 2021, terminarão.  

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