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A seca "mora" no Cunene

16 Maio de 2019 | 12h10 - Sociedade

Ondjiva - Já todo mundo sabe que o problema da seca é cíclico no Cunene, mas poucos imaginam que este ano o fenómeno climático atinge níveis inesperados, deixando um quadro de desolação entre as comunidades daquela província do sul de Angola.

  • Cunene: Gado morre por efeito da seca
  • Cunene: Cunene: Administrador Comunal do Evale, Porfírio Kandjumbwa, Vatileni
  • Cunene: Gado Fragilizado pela seca na província
  • Cunene: Habitante de Ombwa bebe água suja extraída de riacho
  • Cunene: Habitantes de Oshiwanda, comuna de Ombala Yo Mungu repartem panela de massa
  • Cunene: Qualidade da água para consumo, subtraída do solo da localidade de Nehone

(Por Moisés da Silva)

Quem vê, com os seus próprios olhos, a luta das comunidades locais para contornar os efeitos da seca, dificilmente consegue conter as emoções.

O quadro é de tal forma grave, que exige a solidariedade dos "ostentadores", chamados, agora, a mostrar o seu sentimento de humanismo, sem esperarem contrapartidas.     

Naquela província, está patente o que as televisões não mostraram, ou seja, uma realidade ainda não descrita em pleno na mídia tradicional.

O cenário é de comoção e retrata a dor de um povo que teme pela vida. Por aquilo que se vê, não restam dúvidas: a seca "mora no Cunene".

Enquanto noutras paragens de Angola, como nas Lundas, os garimpeiros "vasculham" a terra para procurar diamantes e outros minerais, no Cunene a luta é pela água, acção da qual participam crianças, jovens, mulheres e idosos, "habituados" a comer lixo ou beber água suja.

Quem chega às terras do Rei Mandume e observa a tamanha carência, nem se lembra que o Cuando Cubango, Namibe, Benguela e a Huíla convivem, parcialmente, com o fenómeno.

O problema por aquelas paragens é sem igual, ímpar, e faz antever, de alguma forma, os velhos cenários de crise humanitária dos tempos da guerra em Angola (1975-2002).

A carência do povo e o efeito da estiagem são tão grandes, que uma rolha (cápsula) de óleo vegetal ou de sal vale "ouro" nas localidades do Chiedi e Oshimolo.

Se nas sedes municipais há concidadãos na "boa vida", com os comandos de TV permanentemente nas mãos, no Nehone (município do Cuanhama) os casais e filhos passam o dia a perfurar o solo com picaretas. A "luta" é desenrascar água, a 50 metros do leito rochoso.

Já no Oncóncua, coitadas das crianças! O único divertimento é a famosa transumância, que está a beliscar gravemente o sistema de ensino em toda a província e a produzir, diariamente, centenas de pastores infantis. Nem se fala do Mupa, visto que esta franja anda toda desnutrida.

Nas caminhadas de vai e vem pelo Cunene, há histórias que marcam profundamente, como a de bebés a comer areia no Calucuve. Oh Deus, aonde vivem os ricos deste país?

Por falta de condimentos, vê-se carne simples virar moda no Evale, e até o próprio administrador comunal, Porfílio Vatilene, consome, propositadamente, água verde da chimpaca (reservatório a céu aberto), em solidariedade com o povo.

Na Uia, comuna do município da Cahama, falar de produção agrícola, por esta altura de seca, é como que ofender a milhares de pessoas que dependem directamente da colheita da massambala, do massango e do milho, como base alimentar.

Com a agricultura falida, passaram a depender de doações esporádicas. Aliada à fome e à sede, está a acentuada miséria e/ou pobreza, só vista nas zonas rurais, como na povoação de Oshiowanda, no Ombala Yo Mungo.

Ali, uma panela de massa "branca" com carne guisada "alimenta" toda uma aldeia, com os beneficiários a invadirem com as mãos, como que famintos.

No Otchinjau, porém, o quadro é bem pior. Por não cultivarem tubérculos nem frutas, o comércio ficou pela intenção, o que retira o "poder de compra" aos habitantes locais.

Estes passaram a usar, por longo tempo, a mesma roupa, e a tomar banho uma só vez por mês, por falta de chuva.

Isso acontece porque, além da maioria das chimpacas estar sem água e assoreadas, alguns pontos dos intermitentes rios Cunene e Cuvelai estão "secos" e transformados em passagens estratégicas de automobilistas.

Por tudo o que se vê nos seis municípios (Cuanhama, Namacunde, Curoca, Ombadja, Cahama e Cuvelai), conclui-se que no Cunene só não se registam mortes humanas massivas por força de um Deus milagroso, que protege, até aqui, 857 mil e 443 pessoas e um milhão e 100 bois afectados.

Ainda assim, como resultado da seca que aflige a província, desde Outubro de 2018, já morreram 26 mil e 267 animais, entre bovinos (maior representatividade), suínos e caprinos.

Portanto, haja Executivo e empresários para acudir as vítimas da seca, nesta parte do país, onde o sol e a poeira também concorrem para novas doenças.

O Governo já deu o seu sinal concreto, mas muito ainda deve ser feito para acudir a situação.

Diante desse cenário crítico e recorrente, fica no ar a pergunta: se não chover, na próxima estação de verão, o que será do Cunene?