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O cancro mortal que muitos desconhecem

20 Novembro de 2019 | 14h44 - Saúde

Luanda - Há várias décadas, o termo cancro deixou de ser alheio aos angolanos. Todos os anos, centenas de pacientes procuram ajuda médica especializada para lutar contra a progressão de tumores, no útero, no estômago, nas mamas ou, em muitos casos, no colo do útero.

  • Edifício do Centro Nacional de Oncologia
  • Teresa Kucuango, paciente de cancro de cabeça e pescoço
  • Augusto Lourenço, presidente da Junta Nacional de Saúde
  • Directora clínica do IACC, Isabel Cândido.
  • Pacientes procuram socorro na Junta Nacional de Saúde
  • Vista frontal do Instituto Angolano de Controlo de Câncer
  • Vítima de cancro da cabeça e pescoço, Antónia Filipe.
  • Vítima de cancro da cabeça e pescoço, José Chilonga.

(Por Claudete Ferreira)

O problema do cancro já faz parte da rotina de várias famílias em todo o território nacional e o seu combate permanente está nas prioridades das autoridades sanitárias do país.

O Governo investe forte para fazer baixar os índices de cancro da mama, próstata, pele, do colo do útero, estômago (…), mas os números se mantêm em tendência crescente.

Nos últimos anos, um novo tipo de cancro começa a "ganhar corpo" em Angola: o cancro da cabeça e pescoço, considerado o sexto mais comum em todo planeta Terra.

Os tumores da cabeça e pescoço são muito frequentes no Mundo. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que mais de 90 por cento dos doentes estão acima dos 40 anos, embora a sua incidência esteja a aumentar entre os mais jovens.

Segundo estatísticas oficiais, Angola tem uma média de 50 casos/ano. Isso corresponde a 4,1 por mês, números considerados elevados pelas autoridades sanitárias nacionais.

Para fazer face à enfermidade, o Governo gasta em média 60 mil euros/ano por cada doente de cancro, incluindo os da cabeça e pescoço, num país de quase 30 milhões de habitantes, que conta com apenas dois médicos especializados (cirurgiões) nesse tipo de cancro.

Por falta de profissionais, o Instituto Angolano de Controlo do Cancro é obrigado a "despachar" para o exterior os pacientes acometidos por essa doença, que pode matar silenciosamente.

Portugal e África do Sul são os principais destinos dos pacientes com essa doença que atinge a mucosa da via aerodigestiva superior – compreendida pela boca, faringe e laringe.

Dito de outra forma, são tumores que podem ser encontrados na região da cabeça e pescoço.

Essa enfermidade afecta a cavidade nasal (nasofaringe), a cavidade oral (orofaringe), a laringe e a hipofaringe. Mas há alguns tipos não relacionados à mucosa de tais estruturas. É o caso dos tumores nas glândulas parótidas, salivares e tireoide e, também, nos ossos da cabeça e pescoço.

Estes tumores malignos apresentam uma incidência mundial de cerca de 650 mil casos por ano, tornando-o o quinto tumor maligno mais comum.

De acordo com o local anatómico, esses tumores podem ser classificados como da cavidade oral, faringe, laringe, fossas nasais e seios perinasais e glândulas salivares. O tipo histológico mais frequente é o carcinoma epidermóide, responsável por 90 por cento dos casos.

À espera da vez

Actualmente, Angola está sem capacidade para dar resposta aos problemas do cancro da cabeça e pescoço, ainda pouco falado na imprensa e em campanhas de saúde pública.

Com apenas dois médicos especialistas, em toda a rede pública, tem vários doentes à espera de evacuação para tratamento no exterior do país.

De acordo com Augusto Lourenço, director da Junta Médica Nacional, 52 doentes, com vários tipos de cancro, esperam ser tratados na África do Sul e 61 em Portugal. "Se houver um doente na lista de espera para África do Sul e constatarmos que pode ser acompanhado no Instituto Angolano de Controlo do Cancro (IACC) podemos fazer o sentido inverso", esclarece.

O responsável confessa, entretanto, que em alguns casos se registam agravamentos dos pacientes com cancro "por falta de oportunidade de seguimento ou por qualquer outro motivo, obrigando-os a retornar ao hospital de origem".

Esclarece que os tratamentos são aplicados conforme o grau de evolução da doença. Nos mais brandos (quando a doença está em estágio inicial), a cirurgia local e a radioterapia apresentam-se como opções de sucesso para o paciente.

Nos estágios III e IV (em que há a invasão do cancro para tecidos próximos ou órgãos distantes), a terapia pode variar entre quimioterapia, radioterapia e imunoterapia.

Angústia e desilusão

João Alfredo conhece bem a angústia de quem vive o dia-a-dia acometido por um  cancro. O cidadão diz passar dias difíceis com a mãe.  

"Os dias têm sido difíceis. A minha mãe não dorme e eu nada posso fazer. Estou de mãos atadas”, lamenta o cidadão pela enfermidade da mãe.

João Alfredo narra que o drama da sua progenitora começou há um ano, com um  vermelhão e uma ligeira inflamação nos olhos.

Tudo parecia uma doença comum e passageira. Mas, para surpresa de todos, a situação agravou-se. O que parecia ser uma simples conjuntivite tornou-se pesadelo.

João Alfredo, 41 anos, é o segundo filho de Teresa Kucuango, 63 anos, que padece de cancro da cabeça, em fase avançada. A descoberta do problema foi tardia.

Apesar de vários procedimentos num centro médico do município de Viana, em busca de cura, a situação da sua mãe agravou-se.

O filho até optou por outro tratamento, no Instituto Angolano de Controlo do Cancro (IACC), onde reacendeu a esperança de cura. Mas foi só ilusão.

Sem resultados, Teresa Kucuango foi transferida para o Instituto Oftalmológico Nacional de Angola (IONA), porque, na visão do médico de oncologia, tratava-se apenas de um problema de vista.

Entretanto, após o diagnóstico final, foi evacuada novamente para o IACC.

"Comecei a pensar no pior, porque as dores da minha mãe intensificavam com o passar dos dias em casa. O IACC pediu que aguardássemos pelo contacto do hospital. Aflitos, levamos a mãe para Centro Oftalmológico Internacional de Benguela, onde, durante dois meses, foi assistida pela equipe medica", narra o filho de Teresa Kucuango.

O destino da cidadã estava quase sentenciado e o desespero tomou conta da família. "Para nossa infelicidade, o caso da minha mãe é para tratar no IACC, onde aguarda pelo processo de quimioterapia", relata João Alfredo, com as lágrimas visíveis nos olhos.

Outro cidadão que sofre os efeitos do cancro da cabeça e pescoço é o auxiliar de limpeza José Chilombo, 44 anos. À semelhança de Teresa Kucuango, o seu problema também já está em fase bastante avançada. Os danos são visíveis.

Hoje, José Chilombo quase já não fala. As suas veias escureceram. A sua expressão corporal denota sofrimento e tristeza, mas isso não lhe retira o sonho de cura.

O auxiliar de limpeza passa dias difíceis. Falar e comer é, para ele, é um sacrifício.

O cidadão diz que deixou de trabalhar, mas continua a receber apoio da sua empresa.

Afirma, também, que o atendimento no hospital é excelente.

A comerciante Antónia Filipe, 39 anos, é outra vítima de câncer. A cidadã tornou-se dependente da família e dos poucos amigos que tem.

Há mais de um ano, padece de cancro da cabeça e já iniciou o tratamento, passando pelo processo de quimioterapia. Ainda assim, teme perder o apoio das pessoas que a ajudam.

"Cada dia é uma esperança de vida para mim. Muitos afastaram-se por vergonha, por causa da minha aparência, uma vez que o tumor afectou a vista e outras pessoas nem sequer falam comigo, com medo de serem contaminadas", desabafa.

"Elas pensam que o cancro é uma doença contagiosa. Temo perder os poucos amigos que tenho, dada a minha condição", lamenta a comerciante, visivelmente abalada.

Uma luta diária

Recentemente, por ocasião do Outubro Rosa (dedicado ao cancro da mama), a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, considerou difícil "ver todos os dias no IACC" pessoas em busca de tratamento já em fase terminal, quando a doença poderia ser prevenida.

O problema preocupa a classe médica, em particular os especialistas em cancro, segundo os quais os fumadores têm cinco vezes mais risco de ter tumores na cavidade oral, orofaringe e hipofaringe. Por sua vez, dizem, têm 10 vezes mais risco de adquirir cancro da laringe.

Esta associação depende da carga tabágica, sendo que o risco diminui a partir do momento em que se deixa de fumar. A melhor forma de prevenir é não fumar.

Segundo os especialistas do ramo, o problema do cancro da cabeça e pescoço em Angola pode ser bem mais grave do que parece.

Além da falta de especialistas, a directora clínica do IACC, Isabel Cândido, aponta a inexistência de uma unidade de cuidados intensivos como problema grave.

"Esses casos são operados em outros hospitais e encaminhados para tratamento complementar ou na maioria das vezes inoperáveis para quimioterapia e radioterapia. Alguns são atendidos, além de clínicas privadas, nos hospitais terciários, como o Geral de Luanda e Prenda", afirma.

Diante desse contexto, Isabel Cândido diz que o IACC vê-se incapaz, muitas vezes, de responder à demanda, sobretudo da procura por medicamentos.

A instituição vive um drama constante e convive com a dificuldade de salvar vidas.

Os dados dão conta que, em média, morre semanalmente um doente acompanhado pelo IACC, por causa do cancro da cabeça e pescoço.

Muitos deles perdem a vida por falta de seguimento ou tratamento eficiente.

"Sempre que um medicamento termina, procuramos receber nova remessa para dar continuidade ao tratamento dos doentes", adianta a directora clínica, sublinhando que isso "nunca é suficiente".

O cancro de cabeça e pescoço ainda é desconhecido pela maioria da população em Angola, apesar da crescente prevalência e da gravidade da doença.

Quando diagnosticado de forma precoce, a taxa de sobrevivência é bastante superior e pode rondar os 80 a 90 por cento.

Entretanto, em Angola as vítimas chegam ao hospital, regra geral, já em fase clínica avançada, expondo-se a risco de resistência ao tratamento e consequente morte.

Os números das instituições internacionais referem que, ultimamente, este cancro torna-se um dos tipos de tumores com maior morbilidade e pior taxa de sobrevivência.

Actualmente, cerca de 60 por cento dos doentes são detectados já num estádio avançado da doença e destes cerca de 50 por cento morrem num período de cinco anos.

O aumento de pacientes com cancro da cabeça e pescoço aumenta, significativamente, os custos do Estado com o tratamento, sobretudo com Junta Médica.

Em Angola, além deste, os principais tipos de cancro são da mama, do colo do útero, da próstata, da pele, do estômago e do pulmão,

Dados oficiais indicam que em média um doente oncológico "consome" cinco mil e 500 euros/mês, se for tratado em Portugal ou na África do Sul.

"O tratamento de cancro é caro em todo mundo", afirma o presidente da Junta Médica, Augusto Lourenço, opinião corroborada pela directora clínica do IACC, Isabel Cândido.

"Os custos são elevados. O tratamento oncológico é bastante dispendioso. Uma ampola para quimioterapia pode custar mais de 30 mil kwanzas", refere a responsável.

Segundo Isabel Cândido, às vezes há necessidade de associar diferentes medicamentos, por seis, 12, 20 ciclos, além do material gastável, razão por que o governo continua a disponibilizar algum montante para dar respostas aos casos recebidos.

O país conta com apenas 57 especialistas em cancros, entre os quais cinco são cirurgiões oncológicos, 10 oncologistas clínicos, três radioncologistas, 20 técnicos de radioterapia, cinco físicos médicos, três imagiologistas, três patologistas, dois nutricionistas e cinco fisioterapeutas.

Para o caso do cancro da cabeça e pescoço, o número é ínfimo, ou seja, apenas dois profissionais estão na rede pública para atender quase 30 milhões de angolanos.

O número de pacientes pelo país cresce diariamente. O problema é que muitos não sabem, nem conhecem os sinais para prevenir o combater esse perigoso tipo de cancro.

Enquanto não se aumentam os programas de sensibilização e se investe na formação ou contratação de novos especialistas, muitos podem estar expostos ao silencioso cancro da cabeça e pescoço, uma enfermidade que, pelos números globais, já deve ser vista com "outros olhos".