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Angola: Em busca da saúde ocular

12 Outubro de 2017 | 13h51 - Saúde

Luanda - Desde muito cedo, as vistas do ex-estudante do ensino de base Miguel António começaram a emitir sinais de alerta. A incapacidade progressiva de ver ao longe, fê-lo entrar para as estatísticas oficiais e tornar-se parte de um problema de saúde pública, que já afecta mais de um terço da população angolana.

  • Aumenta número de consultas de oftalmologia no Hospital Geral
  • Consultas de Oftamologia no Hospital Geral
  • Especialistas recomendam consultas regulares

(Francisca Augusto)

O morador do bairro Cassequel do Buraco (Maianga) sofre de uma doença que pode surgir logo após o nascimento e desenvolver-se ao longo da vida, devido a traumas, lesões ou por envelhecimento natural do organismo: a perda de visão.

A cegueira afecta perto de 40 a 45 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, que reporta a existência de outros 285 milhões com deficiência visual moderada ou grave.

Dados apontam que, a cada cinco segundos, uma pessoa fica cega no mundo, sendo que 90 porcento dos afectados está em países em desenvolvimento e 65% tem mais de 50 anos de idade.

Miguel António está muito longe dessa faixa etária indicativa. Mas quis o destino que, aos 34 anos de idade, entrasse para o leque de cidadãos com a visão comprometida.

O seu drama com as vistas começou aos 12 anos de idade, depois de um sarampo mal curado. Tudo iniciou de forma lenta e o que aparentava ser pouco grave, rapidamente, agudizou-se.

O "mal silencioso" afectou primeiro a vista direita e depois de três anos comprometeu a esquerda. Com o avanço da idade, os problemas tornaram-se mais frequentes para o então estudante.

"Nem todo mundo percebe rápido que os olhos estão a pedir cuidados especiais", conta Miguel António, um dos que acedeu à reportagem dedicada ao Dia Mundial da Visão (12 de Outubro).

Ele, que vive com os pais, não recebeu a assistência devida quando mais precisou. Só depois de sofrer danos no olho direito (catarata) veio o socorro, mas já o mal era irreversível.

Fracassada a tentativa de recuperar a vista direita, enfrenta hoje uma batalha mais dura, que requer paciência, fé e determinação: recuperar o olho esquerdo, também com catarata.

A falta de apoio especializado, na hora certa, mudou-lhe radicalmente a história da vida. Agora, por graves limitações na visão, perdeu a capacidade de continuar a estudar e trabalhar.

Natural de Luanda, Miguel António depende dos familiares para fazer quase tudo. A luta é constante e, ainda que muito lhe custe, mantém viva a esperança em dias melhores.

"Os pais ficaram muito tristes ao saber do ocorrido. Mas tiraram-me apenas um olho. Seguirei na luta até ao fim". É com essas palavras que procura animar e tranquilizar os pais.

Para recuperar o olho esquerdo, o único que lhe resta, dispõe-se a tudo que estiver ao seu alcance.

Miguel António já foi submetido a uma cirurgia e após uma semana vê uma luz no fundo do túnel. Os médicos dão esperanças de dias melhores, mas é imperioso cumprir à risca o tratamento.

Viver às escuras

Cenário diferente vive a doméstica Felisbela Van-Dúnem, 46 anos de idade, que convive com a cegueira desde tenra idade. Ela conhece bem a dor de não ter aptidão para contemplar o sol, a lua e as estrelas.

Apesar da limitação, desde muito cedo aprendeu a lidar com a doença e já a encara com normalidade.

"Nunca sabes quando tens o rosto limpo, a roupa limpa, se te aproximas de um obstáculo ou não. Sempre necessitas de ajuda. Mas, com Deus, tudo é possível e aqui estou. Tenho dois filhos e acredito serem lindos e amo de todo coração, a eles e a mim", exprime.

Apela a todos para tratarem bem da saúde ocular, fazerem consultas pelo menos uma vez por ano, sublinhando que as autoridades do país precisam de criar melhores políticas de saneamento básico e fornecimento de água, de forma a reduzirem os índices de doença ocular.

O Executivo procura fazer a sua parte, com a criação de novas instituições vocacionadas para o efeito.

Os números do Instituto Oftalmológico de Luanda, por exemplo, apontam que o gráfico de pacientes com problemas de visão diagnosticados cresceu, em percentual, entre 2016 e 2017.

Sem precisar números, o director dos serviços de apoio ao diagnóstico e terapêutica do instituto, Walter Brás, refere que as consultas aumentaram e 200 pacientes são atendidos em média, por mês.

"A instituição realiza em média 10 cirurgias por mês e o mais frequente é a glaucoma, por ser uma doença grave e genética, considerada uma assassina silenciosa", reforça.

Os olhos são parte fulcral para o normal desempenho do corpo humano. A sua "manutenção" requer cuidados redobrados, de acordo com a oftalmologista Arminda Domingos.

"Para se proteger, vale a pena saber mais sobre os sintomas e tratamentos indicados para os males mais comuns que acometem à vista", refere.

A especialista explica que os sintomas de perda da visão são como que uma "cortina escura que costuma representar um deslocamento da retina".

Isso, sustenta, acontece quando ela se separa da camada subjacente de vasos sanguíneos nutritivos (coroide). "Se a retina não é recolocada em questão de horas, pode haver perda total de visão", acrescenta.

Para quem pouco domina os sintomas da doença, a especialista deixa alguns recados:  "Dor e visão embaçada, acompanhados de vermelhidão, náuseas e vómitos, podem indicar um ataque súbito de glaucoma de ângulo estreito, que causa danos permanentes ao nervo óptico".

O seu colega Walter Brás acrescenta que a redução do campo de visão pode significar que o paciente desenvolveu glaucoma com perda de visão nas bordas do campo.

Cuidados com a luz

Em pleno Dia Mundial da Visão, os especialistas alertam para cuidados com o uso de aparelhos electrónicos, como o telefone celular, principalmente com a luz de led dos equipamentos.

Para quem já está no grupo de "sofredores dos olhos", recomendam algumas dicas que podem ser vitais: visitar regularmente o oftalmologista, evitar o uso excessivo de colírios, saber sempre qual solução é mais indicada, além de usar óculos escuros, para reduzir a exposição dos olhos ao sol e à luz.

De igual modo, aconselham a não exposição a raios ultra-violetas, que pode agravar o desenvolvimento de doenças como catarata e provocar a redução da visão, decorrente da morte de células da retina.

Outra solução passa por manter a região dos olhos limpa, evitar coçar a região das vistas, usar protector ocular em situações de risco e seguir à risca as recomendações de prevenção.

É desta forma que se pode prolongar a vida dos olhos, um órgão de que todos necessitam para orientar o corpo, mas poucos dão o tratamento adequado ao longo da vida.

A busca pela saúde ocular deve ser uma prática constante. Afinal, quem quer viver sem olhos saudáveis? Certamente…ninguém.