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03 Dezembro de 2002 | 16h47 - Internacional

Díli

Díli, 03/12 - A recusa de um professor timorense de colaborar com efectivos policiais que pretendiam deter um estudante acusado de homicídio contribuiu para os confrontos travados hoje, em Díli, entre centenas de alunos e agentes da polícia.

Os confrontos deixaram pelo menos dois agentes feridos, várias viaturas danificadas e provocaram o caos no centro da capital timorense, com centenas de alunos a insultarem a polícia e a manifestarem-se nas ruas. Pelo menos duas motos foram incendiadas pelos estudantes.

A situação agravou-se quando muitos dos alunos da Escola 28 de Novembro tentaram romper um cordo policial, obrigando a polícia a disparar tiros para o ar e a usar gás de pimenta.

O gás foi utilizado nas imediações de um dos supermercados mais concorridos do centro de Díli.

Fontes policiais contactadas pela imprensa explicaram, entretanto, que o incidente de hoje começou ao final da manhã quando agentes internacionais e timorenses, paisana, se deslocaram até a Escola no intuito de deter o jovem acusado de homicídio.

Suspeita-se que o indivíduo seja o responsável pelo esfaqueamento de um outro timorense durante confrontos travados entre dois grupos de praticantes de artes marciais, na semana passada, ocorrido numa zona ocidental da cidade.

"Os alunos estavam a fazer exames e os agentes a paisana foram a sala de aula e pediram ao professor que mandasse sair o aluno que pretendiam deter", disse a fonte policial.

"O professor recusou-se a colaborar e começou a discutir com a polícia, aquecendo desde logo os ânimos entre os restantes colegas", frisou a mesma fonte.

Os alunos da sala correram então para o exterior, tendo-se-lhes juntado outros estudantes do estabelecimento. Posteriormente apedrejaram os agentes, que se viram obrigados a fugir do local para uma rua próxima.

A chegada de reforços - inclusive de efectivos da unidade de intervenção rápida da polícia timorense - agravou ainda mais a tensão com os jovens, que insultaram os agentes, correndo depois pelas ruas até ao Palácio do Governo.

Alguns dos jovens, como a imprensa testemunhou no local, tentaram atingir um polícia timorense que estava de guarda ao Palácio do Governo, atirando-lhe paus e pedras, obrigando-o a fugir.

Grande parte dos jovens dirigiu-se, de seguida, para o Parlamento Nacional - situado próximo da Universidade de Timor-Leste -, tentando forçar a entrada no local e acabando por ser impedido por reforços da polícia que se dirigiram para ali.

Os jovens mantiveram-se durante cerca de uma hora no local, dispersando de seguida.

No próprio Palácio do Governo estava já, desde a manhã e separadamente do incidente registado na escola, uma manifestação integrando centenas de pessoas.

O protesto, organizado pelo grupo radical Conselho Popular Defesa - República Democrática de Timor-Leste (CPD-RDTL), desmobilizou depois de o primeiro-ministro, Mari Alkatiri, ter descido para falar com os manifestantes.

Já na sexta-feira o mesmo grupo se tinha manifestado no local, acabando por desmobilizar depois de um diálogo com o presidente da República, Xanana Gusmão.

A CPD-RDTL tinha, no passado dia 28, organizado um evento alternativo as comemorações oficiais dos 27 anos da declaração unilateral da independência de Timor-Leste pela FRETILIN.

Empunhando bandeiras de Timor-Leste e cartazes nos quais se liam pedidos de justiça "por todos os crimes desde 30 de Novembro de 1975", os cerca de 200 manifestantes insistiram na obtenção de respostas a um conjunto de exigências feitas há vários meses.

Auto-proclamando-se "Massas populares em acção", queixaram-se, especialmente, do facto de a responsabilidade pelas forças de segurança continuar nas mãos das Nações Unidas (ONU).

Exigiram, ainda, o reconhecimento do antigo braço armado da resistência timorense, as FALINTIL.

Os protestos do grupo têm suscitado críticas de vários quadrantes da sociedade timorense porque em quase todas as acções os líderes da estrutura não comparecem.

Numa ironia da situação e num exemplo das consequências da recente onda de violência que se vive em Timor-Leste, os fornecimentos de vidros para os carros do governo e das Nações Unidas estão esgotados em Díli.