Angop - Agência de Notícias Angola Press

Estádio 11 de Novembro inspira cuidados

12 Setembro de 2020 | 06h00 - Desporto

Luanda - O Estádio 11 de Novembro, maior infra-estrutura desportiva do país, edificada no âmbito do Campeonato Africano das Nações (CAN'2010), inspira cuidados, apesar da aparência ainda bela.

  • 11 de Novembro - principal palco da selecção nacional
  • Especialistas reprovam pista de atletismo
  • Estaleiro mantém-se na catedral
  • O exterior do 11 de Novembro está assim
  • Parte exterior do Estádio 11 de Novembro

(Por Marcelino Camões – editor da ANGOP)

Com dimensão e qualidade arquitectónica de “encher os olhos”, o recinto não está em fase de ruína, muito menos abandonado (de todo), como ocorre com grande parte dos campos construídos para servir de suporte à maior festa do futebol africano.

Entretanto, pelos problemas que acumula, o imóvel cujo desenho arquitectónico foi inspirado na rara planta Welwitschia Mirabilis, esconde males de obrigatória reflexão.

Localizado na zona do Camama, município de Belas, província de Luanda, foi erguido em 18 meses, obedecendo padrões da moderna arquitectura universal.

Conquanto, pela velocidade como tudo foi feito, deixa cada vez mais “a nu” uma série de problemas, cuja resolução pode exigir cerca de AKz mil milhões do erário.

O imóvel constava do programa de investimentos públicos do presente ano económico, inviabilizado, todavia, por causa da pandemia da Covid-19.

Enquanto isto, a alternativa será a realização de obras paliativas, para evitar o pior.

No quadro de uma série de reportagens sobre as infra-estruturas desportivas no país, a ANGOP constatou um cenário preocupante no Estádio 11 de Novembro, com realce para a parte exterior, apesar dos esforços da presente gestão, nomeada em 2018.

Actualmente, a infra-estrutura que acolheu os jogos de abertura e de encerramento do CAN'2010, ganho pelo Egipto, apresenta sinais preocupantes, como a falta de placard, de elevadores e parte das bancadas e outras áreas que deixaram de funcionar.

A zona central do primeiro anel e a relva, ainda bem tratada, escamoteiam, de alguma forma, uma verdade que poderá vir à tona, caso não sejam tomadas medidas mais abrangentes tendentes à manutenção e conservação do “gigante” imóvel.

Para agravar a situação, tem uma pista que beneficia tudo, menos a prática do atletismo.

Ao contrário do apregoado à imprensa na altura da sua colocação, de que seria de elevado padrão internacional, a verdade é que, passados 11 anos, naquela pista nunca foi  disputada qualquer prova oficial, por causa do risco de lesão para os atletas.     

Sobre este assunto, até hoje não foram explicadas as razões que levaram à colocação de uma pista cuja qualidade é questionada, de acordo com especialistas da modalidade.

Para José Sayovo, três medalhas de ouro nos Jogos Paralímpicos de Atenas, em 2004,  não se compreende como o maior estádio do país não possui uma pista própria, ainda mais pelos investimentos feitos pelo Estado.

Conforme o ex-atleta, deficiente visual, foi colocada no local uma pista imprópria, susceptível de causar lesões graves aos praticantes.

Na avaliação de Sayovo, “é grave” o 11 de Novembro manter-se sem condições para o desenvolvimento da modalidade rainha dos jogos paralímpicos e olímpicos.

Com cinco participações em Jogos Paralímpicos e com subidas ao pódio, o proprietário de uma escola de formação em atletismo sugere a colocação de outro tapete no Campo dos Coqueiros, o único que sempre serviu a modalidade.

Entretanto, os problemas de desgaste e de conservação do “gigante” Estádio 11 de Novembro, não se limitam à falta de uma pista de atletismo à altura das exigências.

Actualmente, o exterior do recinto desportivo apresenta um cenário desolador, com capim por toda a parte, tal como o estaleiro ainda presente, muito anos depois de edificado. O heliporto está inoperante e as zonas comerciais quase inexistentes.

Neste período de confinamento social, devido à Covid-19, apenas um espaço reservado para leilão de viaturas, bem na entrada do primeiro portão, confere “vida” ao local.

No essencial, os problemas do 11 de Novembro arrastam-se desde 2017/18, altura em que tudo caminhava para o pior, obrigando à criação de uma comissão multissectorial, liderada pela ministra da Juventude e Desporto, Ana Paula do Sacramento Neto.

À época, a equipa, que integrava o então ministro do Interior, Ângelo da Veiga Tavares, e a então ministra do Ordenamento do Território e da Habitação, Ana Paula de Carvalho, visitou e constatou no local construções não autorizadas, em áreas reservadas.

Trata-se, felizmente, de um problema já ultrapassado pelo órgão reitor do desporto no país.

Gestor aponta soluções

A propósito dos problemas existentes, Luís Cazengue, gestor da infra-estrutura, nomeado em 2018, afirma ser prioritário criar condições para albergar jogos do Campeonato Nacional “Girabola ”, da Selecção Nacional e da Taça de Angola.

De igual modo, considera importante trabalhar com afinco na criação de condições que  assegurem o conforto dos praticantes e de todos os envolvidos.

Em relação ao placard electrónico, diz estar inoperante por desactualização do Software, cuja solução passa pela obtenção de outro, por via da empresa chinesa que o fabricou.

A alternativa, segundo o antigo praticante, seria reunir condições financeiras para colocar outro placard com software mais moderno e mais acessível, comprado na Europa ou América, serviço que pode ser obtido online.

Para tal, fundamenta, basta baixar o aplicativo, mediante condições de pagamento.

Quanto à conservação da relva, refere que foram adquiridas quatro máquinas de corte, para os campos erguidos por ocasião do CAN'2010 (11 de Novembro, em Luanda, Chiazi, em Cabinda, Ombaca, em Benguela, e Tundavala, na Huíla), com ajuda do Fundo de Apoio ao Desporto.

Conforme o gestor, “o estádio possui erros de concepção”, citando como exemplo a compactação da terra, uma vez que, quando chove, há abaixamento de terra, gerando  pressão sobre os tubos que se partem e causam rupturas.

Para si, a solução passa por retirar toda a terra à volta e fazer uma nova compactação.

“Quando chove sentimos que há um desnivelamento, porque a terra senta e faz pressão sobre os tubos, causando danos pontuais que acudimos com paliativos”, lamenta.

Para o gestor, é urgente que a intervenção mais profunda aconteça, apesar de o imóvel continuar intacto, mesmo faltando alguns detalhes como elevadores, placard, pista de atletismo, entre outros, para que o seu uso seja pleno.

Enquanto isto, refere, algumas coisas estão funcionais, como a iluminação de última geração, os túneis de segurança, o som, as salas de conferências e tribunas vips.

Luís Cazengue sublinha que, quando foi nomeado para gestor do estádio, o seu principal desafio era tornar o imóvel mais atractivo, começando pelas zonas centrais do primeiro anel, que considera das mais comerciais, na perspectiva das filmagens televisivas, fotográficas e colocação de painéis publicitários.

Indica que a área central, com mais ou menos 10 mil lugares, tinha 4 mil cadeiras partidas, mas hoje a imagem já confere outra atractividade ao recinto.

Considera falsas as informações de que o estádio possui fissuras, explicando que o problema está ao nível do revestimento da estrutura, que por falta de manutenção e conservação resultou em rachaduras.

“O estádio tem problemas, mas não na sua estrutura original. Já estiveram aqui várias empresas, inclusive técnicos da Universidade Agostinho Neto e alguns engenheiros que fizeram um estudo comparado”, argumenta.

Informa que os três campos de treinos foram recuperados, e hoje albergam campeonatos provinciais, treinos das selecções nacionais jovens e femininas.

A selecção de honra, o FC Bravos do Maquis, do Moxico, e o Sagrada Esperança, da Lunda Norte (quando estão em Luanda) também são usuários, além de algumas equipas comunitárias e a EPAL com uma escola de formação.

Rentabilização

Com vista a tornar o estádio mais atractivo,  informou que estão a dar passos, ainda tímidos, na busca de parceiros, resultando deste esforço o aluguer de escritórios, um espaço de leilão de viaturas e três escritórios de consultoria.

Outras acções estão a ser desenvolvidas na vertente comunicacional (publicidade), área tida em conta em qualquer parte do mundo, estando-se já a trabalhar com uma instituição bancária, uma empresa de venda de tintas e com algumas seguradoras.

“A partir deste ano será obrigatório o seguro sobre as infra-estruturas e sobre eventos, pelo que a ideia com as seguradoras é a permuta de serviços, ou seja, ter as marcas expostas em troca do serviço de seguro”, adianta o gestor.

Pela exiguidade de verbas colocadas à disposição, Luís Cazengue afirma ser a sua gestão arrojada, esclarecendo que em 2019 foi cabimentado para o estádio o montante de AKz 35 milhões/ano, quando o ideal seria AKz 50 milhões/mês.

Com 65 funcionários, e com tal realidade financeira, o exercício é mais apertado para o pagamento das mensalidades, sendo que nesta altura existe atraso de dois meses.

As receitas para tais encargos surgem em decorrência dos valores adquiridos com os jogos e aluguer de espaços, que deixaram de acontecer, devido à Covid-19.

“Só em despesas fixas como salários, IRT, luz, água, saneamento, manutenção, entre outros, os gastos ao mês rondam em AKz dez milhões”, explica o gestor do estádio.

Esclarece que em 2020, o seu elenco ainda não recebeu nada proveniente do Estado.

Diante deste cenário, Luís Cazengue diz ter ideias muito claras, que passam pela construção de uma cidade desportiva, com hotel, piscina olímpica, court de ténis, campos de treinos e pista de atletismo (já existe o estádio e o pavilhão).

“Seria aqui a nossa cidade desportiva, à semelhança do que acontece nos outros países do mundo”, reitera, citando a Guine Equatorial, como exemplo.

Para a concretização deste desiderato, seria necessário um bom investimento por parte do estado, que deve também suportar a manutenção, não na plenitude, mais em 70 por cento. Os restantes 30 por cento são cobertos com as actividades extra desportivas.

Quanto ao problema dos acessos, o antigo atacante entende que a solução seria criar no arredor do Estádio 11 de Novembro alguns terminais, a exemplo do Estádio José Alvalade, onde existe paragens de táxis, autocarros, metro, lojas, restaurantes e outros serviços que tornam o local mais atractivo.

Conforme o gestor, há interesse de investimento privado, particularmente de uma empresa de transportes colectivos urbanos do país, cuja situação ainda não está concretizada, pelo facto de o estádio ser “constantemente desvalorizado”.

 Formador sugere maiores cuidados

A propósito do estado do 11 de Novembro, Fernando da Costa Faria, proprietário da escola de futebol “Brincando com a bola”, no município de Viana, defende maior atenção do Estado na conservação e manutenção da infra-estrutura, uma vez que  apresenta novo visual, depois de ter estado quase em vias de abandono.

O formador saúda o trabalho da actual gestão na recuperação do imóvel, dentro dos condicionalismos decorrentes da falta de verba, citando como exemplo o caso dos balneários (casas de banho) que praticamente não eram usados.

Cita, igualmente, a recuperação dos três campos anexos, e aplaude a iniciativa de albergarem jogos dos campeonatos provinciais, treinos das selecções nacionais juvenis, equipas femininas e masculinas das comunidades.

Lamenta o facto de o estádio não ter sido concluído, sendo isto mais visível, fundamentalmente, na parte exterior, que diz ter ficado “muito diferente da maquete”.

Sugere, portanto, que o Governo aposte na construção de recintos comunitários para uso dos clubes, escolas de formação e a própria comunidade, deixando os estádios como Coqueiros e 11 de Novembro exclusivos às provas oficiais e às selecções nacionais.

A julgar pelos relatos à volta da conservação do 11 de Novembro, não restam dúvidas de que o Estado precisa de olhar com atenção para a infra-estrutura, a fim de honrar um investimento que custou milhões ao erário e orgulhou o país por altura do CAN2010.

Já praticamente sem o Estádio Nacional da Cidadela, em risco de ser demolido, Angola e os angolanos esperam um destino melhor para o 11 de Novembro, a nova “catedral” do futebol angolano, que pelos investimentos e as memórias acumuladas, em mais de uma década, não merece cair na letargia e no estado de abandono.

O que será do seu destino só o tempo dirá, mas é factual que, se nada for feito, aos poucos, o “gigante” estádio pode ter o mesmo destino de outras infra-estruturas, ou seja  acumular problemas, perder o brilho e ser mais um duro “fardo” para o Estado.